Notícias > Estreia da Seção Match Frame, com Marília Moraes

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04.NOV.13 | Na seção Match Frame, associados respondem a algumas perguntas sobre seu trabalho, cinema, tecnologia e a associação. Estreamos com Marília Moraes, montadora de “Elena”, “Feliz Natal”, “O Palhaço”, entre outros.

Marilia

Marília na estreia do filme “Construção”, Carolina Sá (foto: Renata Duarte)  

marilia e Selton

Marília Moraes e Selton Mello dividiram o prêmio de melhor montagem de ficção do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, em 2012 (foto: Mônica Imbuzeiro / O Globo)

 

1)   Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente.

No momento, estou num pequeno intervalo na montagem do documentário “Recordações Nordestinas” sobre a vida e obra do compositor João Silva, dirigido por Deby Brennand. É uma história tocante de um homem que enfrentou inúmeras dificuldades para seguir em busca de seu maior sonho, conhecer e trabalhar com Luiz Gonzaga. Mesmo sendo semi-analfabeto, João se estabeleceu como um dos maiores parceiros de Gonzaga, tem um vasto repertório de músicas gravadas, no entanto não é muito conhecido pelos seus feitos. Teve problemas de alcoolismo e dificuldades para lidar com as questões de direito autoral. Sua importância no meio musical é inegável e com um jeito muito peculiar de se autorretratar, João inventa sua vida na frente das câmeras e conta seus “causos” absurdos que revelam a vida sofrida de um nordestino, um homem simples, digno e sonhador.

Após mergulhar em 60 horas de material bruto, conseguimos alinhavar uma estrutura narrativa para contar essa história. Detectamos a necessidade de produção de novas imagens e também de uma pesquisa de arquivo mais profunda. Achamos por bem parar a montagem por um mês e voltarmos pra ilha quando estivermos com esse novo material em mãos.

Nesse tempo, fui convidada para editar algo que faço com menos frequência, mas que tenho um enorme prazer em realizar que é o programa musical “Estúdio do Dado”, dirigido por Gabriela Gastal e Clara Cavour, onde o guitarrista Dado Villa Lobos recebe convidados para uma sessão de ensaios em seu estúdio. Num clima intimista, Dado e os convidados tocam livremente suas novas canções e inspirações.

Considero essa uma boa oportunidade para exercitar a sensibilidade através da música, experimentar um pouco mais de liberdade nos cortes e apurar o olhar estético.

2)   Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê.

Considero o maior desafio da minha carreira, sem dúvida, a montagem do filme “Feliz Natal” (2008) dirigido por Selton Mello. A minha parceria com ele se iniciou neste trabalho e dura até hoje.

Ambos estávamos estreando nas funções exercidas, eu como montadora, porque até então eu era assistente de montagem e ele como diretor e co-montador.

A montanha era íngrime, o trabalho foi árduo e longo.

Precisávamos tomar decisões estruturais que mexiam completamente com o rumo da história que deveria ser contada. Tínhamos um material vasto, muitas cenas tecnicamente bem realizadas, além de brilhantes atuações, mas que necessariamente deveriam ser cortadas.

Que critério usar? Como priorizar certas cenas em detrimento de outras? Como ordená-las da melhor forma? O que precisava estar explícito, o que teria apenas que ser insinuado e o que precisaria ser suprimido?  Enfim, as questões eram inúmeras e a minha experiência era mínima.

O desafio estava imposto e isso foi muito estimulante. O que pude oferecer naquele momento foi uma enorme disposição para o trabalho ao  testar incansavelmente muitos caminhos. Além disso, a minha atenção e sensibilidade estavam redobradas para me ater no que realmente importava naquele drama, identificar e cortar os excessos para que a força da história fosse potencializada.

Foram meses na ilha de edição, muitos cortes e muitas discussões que me fizeram amadurecer rapidamente, fui aprendendo no mesmo momento em que estava com a mão na massa. Uma experiência inesquecível.

3)   As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e de trabalhar?

Eu já lido com a edição não-linear desde o princípio da minha carreira, opero o Final Cut e o Avid, portanto, o maior impacto que sofri foi de uns 3 ou 4 anos pra cá onde a quantidade de material que chega até o editor praticamente quadriplicou de volume após o aperfeiçoamento e populararização das câmeras digitais.

Essa é uma questão que a cada dia se torna imprescindível que falemos sobre, pois essa situação já virou um padrão: a quantidade além de ser exagerada, na maioria das vezes vem sem direcionamento prévio, cabendo ao editor acumular funções que não lhe dizem respeito.

A forma que eu penso a montagem ainda não se transformou. Sou uma montadora que gosta dos brutos, que recorre a eles em diferentes horas ao longo do trabalho, o examina com cuidado e o seleciona muito atentamente, independente do que eu vá montar, ficção ou documentário. Acho esse processo necessário e inspirador, pois te joga para dentro do universo que vai ser desenvolvido e faz com que você domine as suas possibilidades de criação. No entanto, com essa quantidade desmedida de material, a análise cuidadosa é muito dificultada e o que eu tenho feito pra proteger o meu trabalho físico e mental é tentar prolongar os prazos e ganhar mais tempo pra manusear o material antes de efetivamente editá-lo.

A montagem tem o seu tempo específico, além do tempo de maturação que é muito essencial. Isso não pode ser ignorado. Os processos de conversão, sincronização e organização não podem ser considerados tempo de montagem. Procuro fazer com que o material chegue até a mim devidamente organizado e calculo as minhas semanas de trabalho a partir da quantidade do material bruto de cada projeto.

4) Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão?

A edt., ao meu ver, tem uma função extremamente importante para nós profissionais liberais que é inaugurar esse espaço de discussão e reflexão a cerca do nosso ofício. Sermos um grupo coeso nos fortalece perante o mercado de trabalho que é informal por natureza e muitas vezes nos deixa em situações em que realmente não sabemos como agir.

Exigir mínimos direitos, ouvir experiências de outros profissionais, se organizar em nome de ideais comuns, falar sobre questões teóricas e práticas do trabalho faz com que nos sintamos mais confiantes e preparados para desempenhar nossa função.

Assim como qualquer mudança que acontece, quando fazemos parte dela demoramos um pouco mais para notá-la. Acredito que aos poucos estamos conquistando nosso lugar e principalmente adquirindo um rosto, tomando uma personalidade que se tornará mais concreta se dermos sequência a esse ótimo trabalho que vem sendo desenvolvido.

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