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Seção Match Frame – Sergio Mekler

01.JUL.2014 | Sergio Mekler é montador de inúmeros longas-metragens e publicidade. “A Ostra e o Vento”, “Casa de Areia” e o recente “Boa Sorte” são alguns de seus trabalhos. 

tamos juntos

 

Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente.Estou começando a montagem do filme “Campo Grande” dirigido pela Sandra Kogut e produzido pela Tambellini Filmes. Duas crianças, um casal de irmãos, são abandonados num prédio em Ipanema, a partir daí se estabelece a relação entre a dona do apartamento e essas crianças, como estou começando a montagem ainda não da para falar muita coisa…

Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê.

Cada trabalho tem as suas proprias caracteristicas, com os seus prazeres e dificuldades especificas…mas se tivesse que escolher  ficaria com um dos meus  primeiros trabalhos: uma série musical chamada African Pop. Eu não tinha nenhuma experiência e  lembro de ficar pensando como fazer para colocar um plano depois do outro, por que esse e não aquele … era tudo muito intuitivo e eu passava horas em frente ao vhs experimentando várias possibilidades.

As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e realizar a montagem?

Não sou muito ligado a tecnologia, meu interesse pelas maquinas é mais estetico do que prático…para mim a última mudança foi o Avid , antes disso eu montava linearmente, em beta, uma polegada, U matic… com o Avid  ficou bem mais fácil errar e tentar de novo. Antes disso era bom saber o que estava fazendo caso contrário ia gastar um tempo grande corrigindo.

 Indique um filme cuja montagem você admire e explique o porquê.

Gosto muito do modo como os filmes do Robert Bresson são montados.
Me interessa o modo como os planos são articulados, o poder de síntese, a crueza dos cortes e a capacidade de construir uma trilha sonora com os sons ambientes.

Fale um pouco sobre o início de sua carreira. O que te levou a ser montador?

Nunca pensei em ser montador, me interesso por filmes desde muito pequeno mas nunca pensei em cinema como profissão. Sou economista formado e paralelo à faculdade fazia colagens de video para uns shows que fazia com o Fausto Fawcett e Robôs Efêmeros. Eu montava um vídeo para cada música a partir de imagens de filmes que eu buscava nas locadoras, arrumava um vhs emprestado e ia dando play/rec, foi assim que comecei.

Quando você começou a ser chamado para trabalhar profissionalmente? Qual foi seu primeiro trabalho?

A Sandra Kogut e o Roberto Berliner  tinham uma produtora chamada  Anteve, eles viram alguns desses shows. Na época eles estavam fazendo um documentário sobre os Paralamas do Sucesso, chamado V o Video, e precisavam de alguém para ajudar na montagem e acabaram me chamando para trabalhar.Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão?

Apesar de frequentar muito pouco, gosto muito que exista essa associação, um lugar para trocarmos informações sobre todos os aspectos ligados a nossa profissão.

Seção Match Frame – Natara Ney

20.MAI.14 | Natara Ney é a convidada deste mês para a Seção Match Frame. A montadora pernambucana assina a montagem dos premiados longas-metragens “A Máquina”, “O Mistério do Samba” e “O Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas”.

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Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente.

Atualmente estou editando o documentário Divinas Divas. Direção Leandra Leal.

Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê.

Acho que o primeiro é sempre o mais arrebatador, eu estava no Rio há muito tempo e só tinha feito assistência de montagem, quando o Paulo Caldas me chamou para montar o Rap do Pequeno Príncipe. Paulo é um diretor muito presente, então foi um processo de aprendizado e de parceria muito bom.

As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e realizar a montagem?

Eu edito muito no papel, gosto de escrever as sequências e olhas para elas escritas, pensar qual a função delas dentro do filme. Penso muito na edição quando estou fora da sala de montagem. Então a tecnologia é apenas uma ferramenta, que sempre vai mudar, mas o meu processo é dentro do meu juízo.

Indique um filme cuja edição você admire e explique o porquê.

O primeiro que vem a minha mente é “O Homem que Engarrafava Nuvens” Tem essa vitalidade nos cortes e ao mesmo tempo uma montagem atemporal, uma costura invisível.

Fale um pouco sobre o início de sua carreira. O que te levou a ser montadora?

Me formei em jornalismo, e logo no início da faculdade consegui um estágio em uma emissora local. Depois comecei a editar alguns programas para tv, dirigidos por Paulo Caldas e Lírio Ferreira. Algum tempo depois conheci o Mair e vim para o Rio ser assistente dele.  

Por que você escolheu a montagem como profissão?

Nunca imaginei que uma pessoa pudesse viver de fazer cinema, a pessoa no caso eu mesma. Fazer cinema era algo muito distante de tudo o que eu vivia, achava algo etéreo, fantasioso. O que havia em mim desde sempre era o desejo de contar histórias, de narrar fatos.  Veio então o Jornalismo como uma ferramenta para isto, algo sólido e concreto. Depois o teatro, como jogo lúdico, entrou na minha vida. Aprendi que construir uma fantasia para o público envolvia um trabalho duro, e por um tempo pensei no teatro como este caminho para o meu lado artístico. Mas numa tarde qualquer conheci Lírio Ferreira e achei a minha turma definitivamente, percebi que era possível fazer e viver de cinema. A montagem surgiu porque na época que comecei a trabalhar havia poucas mulheres fazendo isso em Recife e envolvia ferramentas que eu tinha aprendido no jornalismo e no teatro que são a estrutura narrativa e a objetividade quando se quer contar bem uma história. Enquanto o set é todo movimento e energia física, a montagem é um diálogo mais tranquilo e cerebral.

Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão?

Sim, as discussões sobre o processo passaram a ser em grupo, e sinto que não estou mais sozinha para resolver os diversos tipos de problemas que surgem não só na montagem mas nas questões legais.

 

Seção Match Frame – Marcelo Moraes

09.ABR.14 | Marcelo Moraes fala sobre sua trajetória para a Seção Match Frame. Ele ganhou diversos prêmios de montagem como pelos filmes “À Margem da Imagem”, “Meu nome não é Johnny” e “Salve Geral”, entre outros.

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“Essa foto foi tirada em 1990, é uma moviola Intercine de 6 pratos. Isso era numa produtora chamada Jodaf-Yes Rio (atual Yes), onde comecei como assistente e virei montador. Eu também mexia numa Prevost que ficava na Jodaf São Paulo. As duas eram italianas, e essa segunda era um luxo porque tinha 2 telas.”

Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente.

Terminei o longa-metragem “Os Homens São de Marte” semana passada, e tenho mais uma semana de trabalho na “Esperança é a Última que Morre”, do Calvito Leal, que deve acontecer em breve. Li o roteiro de Irmã Dulce e estou trocando algumas ideias com o Vicente Amorim, montagem que começa no dia 21 de abril.

Paralelo a esses projetos de cinema, estou editando o programa do GNT “Surtadas na Yoga” e também acabei de editar um episódio de “As Canalhas”.

Feliz que nem “pinto no lixo”.

Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê.

Eu trabalhei com publicidade e clipe até 1999, e só aí que finalmente consegui um longa para montar. Primeiro foi “A Era dos Campeões”, do Marcos Bernstein e Cesario Mello Franco, que tentava explicar como um país como o Brasil conseguiu ganhar 8 títulos mundiais de F1 em 20 anos. Logo em seguida eu montei “À Margem da Imagem”, de Evaldo Mocarzel, que discutia o direito que cada um tem sobre sua própria imagem a partir dos moradores de rua de São Paulo. Esse filme ganhou muitos prêmios nacionais e internacionais, incluindo 4 de montagem.  Depois veio a primeira ficção que foi “O Outro Lado da Rua”, do Marcos Bernstein, com a Fernanda Montenegro. Eu ralei muito para destrinchar esses filmes, e como são os primeiros, foram sem dúvida os maiores desafios.

Em 2006, estava montando “Zuzu Angel”, do Sérgio Rezende, de quem sou muito fã desde que vi “O Homem da Capa Preta”, na minha opinião um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Então a Mariza Leão que estava produzindo “Meu Nome Não é Johnny” na mesma sala, me chamou para montá-lo. Esse foi um grande desafio no início, porque eu e o Mauro Lima não nos conhecíamos. Mas logo nos entendemos e foi tudo maravilhoso.

As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e de trabalhar?

Quais mudanças tecnológicas? Estamos vivendo um momento bizarro, trabalhando com um software de 2007, o FinalCut 7. É um  paradoxo enorme considerando que estamos vivendo  a  Revolução Digital, turbilhão de mudanças e descobertas que se equipara à Revolução Industrial. O pior é que eu desconfio que o FinalCut 7 nunca foi tão estável, o que me leva a acreditar que o que atrapalhava eram as constantes atualizações do programa. O que torna tudo mais bizarro ainda.

Indique um filme cuja edição você admire e explique o porquê.

Posso indicar três? “After Hours” (Depois de horas), do Scorcese, é um filme que se passa numa noite, com montagem virtuosa e fez com que eu me apaixonasse definitivamente pela montagem. Vi o filme em 1985.

Tem um filme do Soderberg que se chama “The Limey”, “O Estranho” em português, que ele esbanjou invenção e categoria na montagem como um todo e especificamente nos diálogos. Acho que a parte mais sofisticada no ofício de montador são os diálogos, justamente porque parece fácil. Você tem que estar muito atento à intenção da cena, dos personagens e da narrativa, para saber o que priorizar naquele momento. Evidentemente o dono da palavra não é sempre o dono da imagem, essa pode estar no ouvinte ou até num cinzeiro que faça parte do cenário.

E por fim, o mais antigo, um clássico absoluto no nosso quesito, “O Homem Com a Camera”, do Vertov. Acho que assisti a esse filme umas 50 vezes, pelo menos. É um documentário-tese sobre o homem escolhido por Lenin para tocar o cinema naquela Rússia dos primeiros anos pós-revolução. Vale dizer que Lenin decretou que o cinema era a mais importante de todas as artes e portanto não faltavam recursos. Vertov faz um registro do cotidiano de uma cidade soviética com poesia coreográfica e conceituação filosófica, fazendo analogia entre o olho humano e a lente da câmera. Só música e imagem…sensacional, montado pela mulher dele, que aparece trabalhando na moviola.

Fale um pouco sobre o início de sua carreira. O que te levou a ser montador?

Eu comecei a trabalhar como assistente de edição de programa de TV, depois quando tentei migrar para o cinema houve o fim da Embrafilme, a maior crise do cinema brasileiro, promovida pelo então presidente Collor. Em 1992 o Brasil não produziu filme algum. Então a publicidade me pareceu interessante para aprender o ofício e ganhar algum dinheiro. Em 1988, era assistente de montagem do grande Zé Rubens, numa moviola Intercine, e 2 anos depois virei montador. O Zé foi o meu mestre.

O que me levou a ser montador… Sempre amei cinema, esperava as estreias com ansiedade, decorava os nomes dos diretores e atores. Acho que eu era inseguro para admitir que queria ser diretor, e por isso comecei a reparar nas outras funções. Quando assisti ao “After Hours”, que falei acima, percebi que a montagem era uma função autoral.

Devo dizer também que o programa “Armação Ilimitada”, da TV Globo teve importância na minha escolha profissional. Nosso querido João Paulo de Carvalho era o montador e imprimia um ritmo muito legal, moderno pra época. Já falei isso pra ele.

Como foi migrar da publicidade para o cinema, do ponto de vista da montagem?

A migração foi muito difícil. Lembro que fiquei montando meses “A Margem da Imagem” e tive que jogar tudo fora, começar do zero. A montagem já estava com quase 90 minutos. Eu estava seguindo um discurso e só depois entendi que tinha que seguir os personagens. No cinema a gente tem que se identificar, e para isso temos que humanizar os personagens. Eu detesto documentário com montagem “huguinho, zezinho e luizinho”, sabe como é? Um começa a frase, o outro continua e o terceiro finaliza. Era isso que eu estava fazendo.

Por outro lado, depois que “peguei a mão”, pude usar a concisão da publicidade e do videoclipe para tornar aquele tema árduo numa coisa mais estimulante de assistir. Lembro que alguns críticos mais acadêmicos falaram que aquilo era videoclipe..rs. Realmente, fiz um clipe só com ruídos e imagens dos moradores de rua, tentando passar a ideia de roubo da imagem deles.

Mas foi muito sofrido, eu e Evaldo brigamos muito, quase paramos de nos falar. Nós somos amigos de infância e não sei se isso facilitou ou dificultou o processo. Fizemos vários filmes depois desse, e acho que a minha experiência com comerciais, que de alguma forma tem que entreter o espectador, somou muito bem com a cultura e erudição do Evaldo. Por causa disso tudo, tenho um carinho e orgulho enorme por esse filme.

Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão?

Eu acho a associação sensacional, uma grande conquista, chego a ficar emocionado de estar presente no início dessa história. Quando comecei a trabalhar, ninguém sabia o que era ser montador, chegavam a perguntar se eu montava  cavalos…rs. A contribuição é essa que já está dando, que é nos unir, nos ouvir, nos valorizar. Acho que essa primeira diretoria fez um trabalho histórico e que continua agora com a nova chapa.

Seção Match Frame – Karen Akerman

24.fev.14 | Karen Akerman é entrevistada do mês da coluna Match Frame. Alguns filmes recentes montados por Karen são os premiados “O lobo atrás da porta”. “Morro dos Prazeres” e “Contos da Maré”. Além de montadora, Karen é também diretora.

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1)   Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente.

 Estou em fase final de montagem de um longa –  “Aqui deste lugar”, dirigido por Sérgio Machado e Fernando Coimbra. O ponto de partida do documentário é: quem são as pessoas que recebem o Bolsa Família? Como e porque recebem? Em estilo “cinema direto”, a câmera observa a rotina dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), acompanha as Buscas Ativas e seus detalhados questionários. Após ouvir e conhecer umas tantas pessoas, habitantes das cinco regiões do país, três famílias foram escolhidas. O filme, então, entra na casa destas famílias, e vai, como a quarta parede, contemplar o cotidiano.

Estou também iniciando um filme dirigido por mim em parceria com Miguel Seabra Lopes – “Confidente” – que está sendo integralmente criado na montagem. Fizemos uma vasta pesquisa no acervo do Arquivo Nacional, e vamos construir, através de uma narrativa experimental, um sistema paranoico de repetição visual e sonora para atingir o retrato patológico de um homem.

 2)   Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê.

Ainda guardo como grande desafio dois filmes que montei recentemente.

“O Lobo Atrás da Porta”, do parceiro de longa data Fernando Coimbra. Por transitar pela suspense para narrar dois pontos de vista diferentes da mesma história, o filme ganha diversas camadas de interpretação. No roteiro já estava bem delineada essa linguagem, mas foi na montagem que construímos o desenho final para enaltecer os climas e ganhar em tensão.

O documentário “Morro dos Prazeres”, primeira parceria com uma diretora que admiro muito – Maria Augusta Ramos. A premissa era a recente instalação de uma UPP na comunidade do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Seguindo o estilo dos filmes anteriores da diretora, onde nunca fica totalmente claro o que de fato aconteceu e o que foi provocado – pelo rigor do posicionamento da câmera e pela própria construção de personagens – o filme trata do conflito entre os moradores e os policiais, que de repente chegam e interferem de forma intrusiva no cotidiano. Foi o trabalho mais angustiante que já participei. Estávamos ali numa situação limite, tentando buscar um equilíbrio entre as partes, tentando não julgar, já que a montagem buscou revelar os seres humanos que estão metidos neste conflito, aparentemente sem soluções.

 3)   As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e de trabalhar?

Não existe nada mais charmoso que a moviola, mas devo admitir que me apaixonei quando conheci o Avid. Me sentia poderosa operando aquela máquina grande, rodeada por placas, decks, mixers, monitores, onde tudo acontecia de forma eficaz e veloz. Algum tempo depois, apesar de certa resistência, migrei para o Final Cut, como todos migraram. E, atualmente, adoro ter o meu final cutzinho em casa. Ou seja, a gente se adapta.

 4) Indique um filme cuja edição você admire e explique o porquê.

Todos os filmes que vi do Alain Resnais, por trabalhar a repetição e a cadência; alguns filmes do Godard, pela montagem filosófica e de invenção; Outubro, do Eisenstein, pela montagem intelectual e visionária. Para não dizer que só falei dos clássicos, recentemente assisti no cinema um filme cuja montagem me chamou a atenção: L’inconnu du Lac (em português traduzido como “Um Estranho no Lago”), de Alain Guiraudie. Pelo rigor nos cortes e precisão no ritmo, é a montagem invisível.

 5) Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão?

A edt representa o fim da solidão na sala escura, no pântano dos formatos e codecs, na guerrilha sem lei do mercado. E isso é só o começo.

Seção Match Frame, com Quito Ribeiro

15.JAN.14 | Quito Ribeiro responde às perguntas da Seção Match Frame. Quito montou, entre outros filmes, “Paraísos artificiais”, Bróder” e “Viva São João!”.

Quito+Ribeiro

1) Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente.

Terminei a edição da minissérie para a rede Globo, Amores Roubados com direção de José Villamarin. Estou finalizando a edição do longametragem Tim Maia dirigido por Mauro lima e produzido pela RT Features.

2) Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê.

Nao sei te responder sobre o maior desafio. A nossa atividade tem um desafio constante de contar historias e a dificuldade de contar determinada história com o material gravado/filmado é ao mesmo tempo a dor e a delicia para os editores.

3) As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e de trabalhar?

Sobre tecnologia penso o seguinte: Eu sou da geração que começou a editar junto com a chegada dos Avids ao Brasil. Meu método de edição foi portanto criado e todo baseado neste primeiro contato com a edição e com o software ao mesmo tempo. Com o surgimento do final cut, de inicio adaptei ele para não atrapalhar minha maneira de editar já baseada no que aprendi no Avid, Mas aos poucos fui me “entrosando” com o final cut e usando algumas das suas características no meu método.
As mudanças na captação de imagem não alteraram muito meu trabalho em si, mas interferem nafinalização de um modo geral e acabam interferindo lateralmente na edição.

4) Indique um filme cuja edição você admire e explique o porquê.

Pra citar exemplos recentes gosto muito da edição de O som ao redor de Kleber Mendonça filho( editado por ele mesmo junto com João Maria); E da edição de O Garoto da bicicleta (le Gamin au Velo) dos irmãos Dardenne editado por Marie Helene Dozo. Gosto de ambas pelo mesmo motivo: pela precisão e pela concisão; duas características muito importantes para mim na montagem de qualquer coisa.

5) Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão?

Acho que a Edt. Tem tudo para ser um grande espaço de reflexão sobre o audiovisual a partir da ótica dos editores e de outros membros da Pós produção que são uma contrapartida muito importante na nossa área e que são ainda um pouco invisíveis, principalmente para os leigos, mas mesmo para outros colegas de trabalho.

Estreia da Seção Match Frame, com Marília Moraes

04.NOV.13 | Na seção Match Frame, associados respondem a algumas perguntas sobre seu trabalho, cinema, tecnologia e a associação. Estreamos com Marília Moraes, montadora de “Elena”, “Feliz Natal”, “O Palhaço”, entre outros.

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Marília na estreia do filme “Construção”, Carolina Sá (foto: Renata Duarte)  

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Marília Moraes e Selton Mello dividiram o prêmio de melhor montagem de ficção do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, em 2012 (foto: Mônica Imbuzeiro / O Globo)

 

1)   Fale sobre o projeto em que você está trabalhando atualmente.

No momento, estou num pequeno intervalo na montagem do documentário “Recordações Nordestinas” sobre a vida e obra do compositor João Silva, dirigido por Deby Brennand. É uma história tocante de um homem que enfrentou inúmeras dificuldades para seguir em busca de seu maior sonho, conhecer e trabalhar com Luiz Gonzaga. Mesmo sendo semi-analfabeto, João se estabeleceu como um dos maiores parceiros de Gonzaga, tem um vasto repertório de músicas gravadas, no entanto não é muito conhecido pelos seus feitos. Teve problemas de alcoolismo e dificuldades para lidar com as questões de direito autoral. Sua importância no meio musical é inegável e com um jeito muito peculiar de se autorretratar, João inventa sua vida na frente das câmeras e conta seus “causos” absurdos que revelam a vida sofrida de um nordestino, um homem simples, digno e sonhador.

Após mergulhar em 60 horas de material bruto, conseguimos alinhavar uma estrutura narrativa para contar essa história. Detectamos a necessidade de produção de novas imagens e também de uma pesquisa de arquivo mais profunda. Achamos por bem parar a montagem por um mês e voltarmos pra ilha quando estivermos com esse novo material em mãos.

Nesse tempo, fui convidada para editar algo que faço com menos frequência, mas que tenho um enorme prazer em realizar que é o programa musical “Estúdio do Dado”, dirigido por Gabriela Gastal e Clara Cavour, onde o guitarrista Dado Villa Lobos recebe convidados para uma sessão de ensaios em seu estúdio. Num clima intimista, Dado e os convidados tocam livremente suas novas canções e inspirações.

Considero essa uma boa oportunidade para exercitar a sensibilidade através da música, experimentar um pouco mais de liberdade nos cortes e apurar o olhar estético.

2)   Qual foi o trabalho que significou o maior desafio em sua carreira e explique o porquê.

Considero o maior desafio da minha carreira, sem dúvida, a montagem do filme “Feliz Natal” (2008) dirigido por Selton Mello. A minha parceria com ele se iniciou neste trabalho e dura até hoje.

Ambos estávamos estreando nas funções exercidas, eu como montadora, porque até então eu era assistente de montagem e ele como diretor e co-montador.

A montanha era íngrime, o trabalho foi árduo e longo.

Precisávamos tomar decisões estruturais que mexiam completamente com o rumo da história que deveria ser contada. Tínhamos um material vasto, muitas cenas tecnicamente bem realizadas, além de brilhantes atuações, mas que necessariamente deveriam ser cortadas.

Que critério usar? Como priorizar certas cenas em detrimento de outras? Como ordená-las da melhor forma? O que precisava estar explícito, o que teria apenas que ser insinuado e o que precisaria ser suprimido?  Enfim, as questões eram inúmeras e a minha experiência era mínima.

O desafio estava imposto e isso foi muito estimulante. O que pude oferecer naquele momento foi uma enorme disposição para o trabalho ao  testar incansavelmente muitos caminhos. Além disso, a minha atenção e sensibilidade estavam redobradas para me ater no que realmente importava naquele drama, identificar e cortar os excessos para que a força da história fosse potencializada.

Foram meses na ilha de edição, muitos cortes e muitas discussões que me fizeram amadurecer rapidamente, fui aprendendo no mesmo momento em que estava com a mão na massa. Uma experiência inesquecível.

3)   As recentes mudanças tecnológicas tiveram algum impacto sobre a sua forma de pensar a montagem e de trabalhar?

Eu já lido com a edição não-linear desde o princípio da minha carreira, opero o Final Cut e o Avid, portanto, o maior impacto que sofri foi de uns 3 ou 4 anos pra cá onde a quantidade de material que chega até o editor praticamente quadriplicou de volume após o aperfeiçoamento e populararização das câmeras digitais.

Essa é uma questão que a cada dia se torna imprescindível que falemos sobre, pois essa situação já virou um padrão: a quantidade além de ser exagerada, na maioria das vezes vem sem direcionamento prévio, cabendo ao editor acumular funções que não lhe dizem respeito.

A forma que eu penso a montagem ainda não se transformou. Sou uma montadora que gosta dos brutos, que recorre a eles em diferentes horas ao longo do trabalho, o examina com cuidado e o seleciona muito atentamente, independente do que eu vá montar, ficção ou documentário. Acho esse processo necessário e inspirador, pois te joga para dentro do universo que vai ser desenvolvido e faz com que você domine as suas possibilidades de criação. No entanto, com essa quantidade desmedida de material, a análise cuidadosa é muito dificultada e o que eu tenho feito pra proteger o meu trabalho físico e mental é tentar prolongar os prazos e ganhar mais tempo pra manusear o material antes de efetivamente editá-lo.

A montagem tem o seu tempo específico, além do tempo de maturação que é muito essencial. Isso não pode ser ignorado. Os processos de conversão, sincronização e organização não podem ser considerados tempo de montagem. Procuro fazer com que o material chegue até a mim devidamente organizado e calculo as minhas semanas de trabalho a partir da quantidade do material bruto de cada projeto.

4) Como você acha que a associação pode contribuir para a nossa categoria? Você já notou alguma mudança? Tem alguma sugestão?

A edt., ao meu ver, tem uma função extremamente importante para nós profissionais liberais que é inaugurar esse espaço de discussão e reflexão a cerca do nosso ofício. Sermos um grupo coeso nos fortalece perante o mercado de trabalho que é informal por natureza e muitas vezes nos deixa em situações em que realmente não sabemos como agir.

Exigir mínimos direitos, ouvir experiências de outros profissionais, se organizar em nome de ideais comuns, falar sobre questões teóricas e práticas do trabalho faz com que nos sintamos mais confiantes e preparados para desempenhar nossa função.

Assim como qualquer mudança que acontece, quando fazemos parte dela demoramos um pouco mais para notá-la. Acredito que aos poucos estamos conquistando nosso lugar e principalmente adquirindo um rosto, tomando uma personalidade que se tornará mais concreta se dermos sequência a esse ótimo trabalho que vem sendo desenvolvido.