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edt vai premiar melhor montagem de invenção na Semana dos Realizadores

19.NOV.14 | A edt e a Semana dos Realizadores selam uma parceria nesta sexta edição do festival. Uma comissão indicada pela diretoria da edt. vai conceder o Prêmio edt. – Ricardo Miranda de Montagem de Invenção para longas-metragens e curtas e médias-metragens em competição no festival, que acontece de 20 a 26 de novembro.

A diretoria indicou para compor o juri um nome integrante da diretoria atual, Vinicius Nascimento, um nome da diretoria anterior, Nina Galanternick, e um nome dentre os associados, Joana Collier. O trio terá a responsabilidade de conceder esse prêmio às montagens que melhor expressem sua potência inventiva.

O festival tem por regra oferecer 2 prêmios, respectivamente, ao melhor longa-metragem e melhor curta ou média-metragem, e além desses há 3 prêmios que podem ser concedidos pelo juri de acordo com sua avaliação. Agora, o prêmio edt. garante à montagem uma premiação permanente.

O prêmio edt.- Ricardo Miranda, além de ser  uma homenagem ao querido Ricardo Miranda, mestre da montagem de invenção, que nos deixou este ano, é também uma iniciativa de promover o reconhecimento do trabalho de nossos pares e divulgar nosso ofício.

“Considero o montador um autor – reflito e vejo o cinema do Brasil, atualmente, como um cinema pequeno, com um grande desamor para com os inventores. Donos de uma força monumental, de um vontade de jogar para as plateias filmes de significação, aposta, sentido, emoção, beleza, audácia, coragem e generosidade.” Ricardo Miranda

Confiram abaixo a lista dos concorrentes!

 

Longas-metragens em competição

A misteriosa morte de Pérola

62 min. digital. 2014. CE.

Direção: Guto Parente

Montagem: Guto Parente

23/11 – 19h

A vizinhança do tigre

95 min. digital. 2014. MG.

Direção: Affonso Uchoa

Montagem: Luiz Pretti, Affonso Uchoa e João Dumans

20/11 – 21h30

Batguano

75 min. digital. 2014. PB.

Direção: Tavinho Teixeira

Montagem: Arthur Lins

21/11 – 19h15

Brasil S/A

70 min. digital. 2014. PE.

Direção: Marcelo Pedroso

Montagem: Daniel Bandeira

25/11 – 21h30

Com os punhos cerrados

74 min. digital. 2014. CE.

Direção: Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti

Montagem: Clarissa Campolina

21/11 – 21h30

Dromedário no asfalto

84 min. digital. 2014. RS.

Direção: Gilson Vargas

Montagem: Vicente Moreno

25/11 – 19h15

Ela volta na quinta

118 min. digital. 2014. MG.

Direção: André Novais Oliveira

Montagem: Gabriel Martins

24/11 – 21h30

Flutuantes

75 min. digital. 2013. RJ.

Direção: Rodrigo Savastano

Montagem: Júlia Bernstein e Rodrigo Savastano

20/11 – 19h15

Noite

80 min. digital. 2014. RJ.

Direção: Paula Gaitán

Montagem: Paula Gaitán

24/11 – 19h15

Sinfonia da necrópole

85 min. digital. 2014. SP.

Direção: Juliana Rojas

Montagem: Manoela Ziggiatti

19/11 – 21h30

Urihi Haromatipë – Curadores da Terra-floresta

60 min. digital. 2014. RO.

Direção: Morzaniel ƚramari Yanomami

Montagem: Pedro Portella, Julia Bernstein e Morzaniel

ƚramari Yanomami

22/11 – 19h

Ventos de agosto

77 min. digital. 2014. PE.

Direção: Gabriel Mascaro

Montagem: Ricardo Pretti e Eduardo Serrano

23/11 – 21h

 

Curtas e médias-metragens em competição

A máquina do tempo

5 min. digital. 2013. Brasil/Alemanha.

Direção: Gustavo Jahn e Melissa Dullius

Montagem: Gustavo Jahn e Melissa Dullius

25/11 – 19h15

Aquele cara

19 min. digital. 2013. CE/MG

Direção: Dellani Lima

Montagem: Dellani Lima, Ana Moravi

20/11 – 19h15

Arquipélago

28 min. DCP. 2014. Brasil/Chile

Direção: Gustavo Beck

Montagem: Ernesto Gougain

23/11 – 21h30

Karioka

20 min. digital. 2014. MT.

Direção: Takumã Kuikuro

Montagem: Takumã Kuikuro

25/11 – 21h30

Nada é

32 min. digital. 2014. CE.

Direção: Yuri Firmeza

Montagem: Frederico Benevides

23/11 – 19h

Nova Dubái

56 min. digital. 2014. SP.

Direção: Gustavo Vinagre

Montagem: Rodrigo Carneiro

22/11 – 23h30

Retrato n. 1 Povo acordado e suas 1.000 bandeiras

5 min. digital. 2013. MG.

Direção: Edu Ioschpe

Montagem: Edu Ioschpe

21/11 – 21h30

Rua de mão única

10 min. digital. 2013. MG.

Direção: Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado

Montagem: Tiago Mata Machado

24/11 – 19h15

Si no se puede bailar, esta no es mi revolución

16 min. digital. 2014. Brasil/Cuba.

Direção: Lillah Halla

Montagem: Angela Waimai

19/11 – 21h30

Vailamideus

8 min. digital. 2014. CE.

Direção: Ticiana Augusto Lima

Montagem: Ticiana Augusto Lima

22/11 – 23h30

Vertières I, II, III

10 min. digital. 2014. RJ.

Direção: Louise Botkay

Montagem: Louise Botkay

22/11 – 19h

Vistas e visões

14 min. digital. 2014. SP

Direção: André Francioli da Conceição

Montagem: André Francioli da Conceição

21/11 – 19h15

Ricardo Miranda e a experiência do cinema de invenção – texto de Pedro Bento.

06.JUN.14 | “Flaubert: uma maneira de cortar, de romper o discurso sem o tornar insensato” (Roland Barthes – O Prazer do Texto)

Ricardo Miranda foi o meu mestre no cinema e a sua partida às vésperas de completar 64 anos me deixou desconcertado. Este relato pretende expor a enriquecedora experiência conceitual e prática na montagem de imagens e sons para o cinema ao longo da colaboração e amizade que cultivamos ao longo destes quase 5 anos em que convivemos.

Ricardo dava aulas de Teoria da Montagem na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Era um professor de semblante enigmático e se expressava com poucas palavras. Sua figura grisalha lembrava o velho Orson Welles. Em seus cursos nos apresentava um recorte singular do cinema mundial e projetava filmes que ele garantia que dificilmente veríamos em algum outro lugar… Filmes de Peleshian, Paradjanov, Straub e Eisenstein! 

Defendia a montagem dialética de Eisenstein – que consiste em não considerar as imagens como tijolos em sucessão que erguem a obra como um todo, mas sim pensar o choque dialético: pensar a 3ª imagem formada pela mudança brutal de uma imagem para a a imagem seguinte – no corte seco.

Evidenciava a necessidade do pensamento no projeto do cinema de autor brasileiro: em filmes de Sganzerla, Glauber, Bressane e Saraceni! Para a vulgata, era a etiqueta pejorativa do “cinema marginal” – para nós alunos, eram filmes feitos de maneira libertadora e revolucionária – e Ricardo nos mostrava que os filmes eram muito mais do que isso: nos transmitia as leituras e as idéias por trás dos roteiros desses filmes a partir da interlocução e amizade que tinha cultivado com cada realizador. Finalizava dizendo “Estudem!”.

Fui chamado em 2011 pela amiga Barbara Vida, a jovem atriz e produtora de seus últimos 2 longa metragens, para participar das filmagens de seu primeiro mergulho sobre a obra de Flaubert: Djalioh – o seu segundo longa de ficção, reescrito por Ricardo a partir do estudo de roteiro que havia conduzido em 1980 com Breno Kuperman.

Djalioh conta a história de um cientista francês que vai até o Brasil colonial praticar o perverso experimento de cruzar uma escrava, com um macaco. Da imaginação do jovem Flaubert sobre o Brasil – que escrevera este conto fantástico aos 16 anos – nascia a bizarra criatura Djalioh. O texto carrega um projeto subterrâneo contra a ciência positivista que se praticava na Europa, além de fazer um deboche estarrecedor com a forma literária do romantismo.

Através da figura do narrador, penetrávamos nas profundezas da alma de uma criatura bestial, em pensamentos que serviam de bode expiatório onde se reforçava um discurso de crítica dos costumes que seria interditado a um personagem totalmente humano. Nas palavras do crítico Fábio Andrade, “Em Djalioh, as palavras são personagens, como os personagens são palavras”.

Durante as filmagens eu era ainda muito inexperiente e atrapalhado como assistente de câmera, e trabalhava para o virtuoso fotógrafo Antonio Luiz Mendes. Antonio é um fotógrafo com enorme senso de persistência na busca pela luz e pelo quadro almejados, trabalha com uma enorme seriedade nas horas de filmagem, e é de uma alegria reluzente e jovial nos momentos de intervalo e descanso.

Minha inabilidade com o trabalho no set foi compensada com o primoroso trabalho de montagem que tocamos, Ricardo e eu, em minha ilha de edição, ao longo de dois meses, em que encaminhamos Djalioh à sua forma final.

Se em aulas Ricardo defendia um corte rápido e veloz, era para que pensássemos ao máximo o exercício do corte, nos propondo mirabolantes desafios que devíamos entregar apressadamente no prazo de uma ou duas semanas, para que o curso seguisse em frente. Trabalhando por dois meses em seu longa, eu aprendia também um outro corte: em um filme que tinha planos que duravam seis… sete… dez minutos, às vezes. O método consistia em suspender as imagens ao limite até que os olhos gritassem “CORTA!”, e então entrava o plano seguinte: no corte lacaniano.

Então me tornei amigo de Ricardo, e pude conhecer aos poucos a sua vasta obra como documentarista, publicitário e gerente do departamento de interprogramas na TV Brasil. Djalioh teve cerca de dois anos de circulação em quase uma dúzia de festivais. Na vida social, Ricardo era um homem gentil, e sua longa carreira como montador (alguém que trabalha para diretores) pareceu ter solidificado a sua personalidade tranquila de alguém que dificilmente se estressava, na contramão da arrogância voluntariosa que se vê nas biografias dos diretores de cinema.

Depois trabalhando, nos momentos mais difíceis, quando o material bruto não parecia oferecer nenhuma solução para a montagem, era fundamental recorrer a suas realizações como montador. A lógica selvagem com que Ricardo trabalhava a montagem está presente de maneira bem pronunciada nos curtas H.O. (1979), sobre Hélio Oiticica, de Ivan Cardoso e O Som ou Tratado de Harmonia (1984), de Arthur Omar sobre a metafísica do som; filmes que Ricardo havia montado ainda no tempo das moviolas.

Em 2012, montei o longa de ficção Estado de Exceção junto ao diretor Juan Posada, pela primeira vez sem o constante diálogo com Ricardo Miranda. Nos reunimos com Ricardo com o filme já montado, e seus conselhos foram fundamentais para que chegássemos ao corte final. Ricardo respeitou os fotogramas de nossos cortes e propôs valorosas mudanças na macroestrutura do filme.

No ano seguinte, junto à amiga e filósofa Marina Cavalcanti, escrevemos um ensaio intitulado Estado de Exceção – Estado de Espírito que analisava a estrutura narrativa do filme. O texto foi publicado em uma revista virtual italiana e encerra em um agradecimento a Ricardo e a Rosemberg.

 

Neste ensaio confrontamos a forma do filme em questão a uma certa estética. Naturalmente nosso intuito não foi o de transformar a crítica feita a um cinema predominante em uma denuncia formal, mas sim de resgatar alguns dos paradigmas do cinema moderno, sempre tão presentes em filmes que apresentam uma forma desafiadora, e, ao mesmo tempo, tão faltosa neste cinema de efeitos que caracterizamos ao longo do texto. (…) Agradecemos aos realizadores Luiz Rosemberg Filho e Ricardo Miranda, pelos livros de Pasolini que nos foram emprestados, pelas conversas esclarecedoras, e pelo constante empenho dos dois, cada um à sua maneira, de sempre questionar as formas e os limites da linguagem cinematográfica, a cada novo filme.

 

Rosemberg, ou apenas Rô, para os mais próximos, tem quase uma centena de filmes-discurso onde às vezes ele próprio, noutras vezes atores e atrizes, declamam manifestos mesclados às suas bricolages, formando um todo de assuntos recorrentes: Rô escreve com poesia e pessimismo ao enunciar repúdio às guerras, fazer críticas aos governos e seus chefes de estado; e com uma admiração contemplativa sem igual, faz um elogio ao cinema, à obra de arte, ao erotismo e à intelecção.

As bricolages de Rosemberg são obras de arte que podem ser consideradas à parte, mas que estão também integradas a muitos de seus filmes. Seu primeiro longa metragem, Crônica de um Industrial, foi montado por Ricardo Miranda e fotografado por Antonio Luiz, em 1978, e já carregava todas as tônicas até hoje presentes no cinema de Rosemberg.

No ano de 2013, chegou a vez de Ricardo filmar mais um conto da juventude de Flaubert: em Paixão e Virtude, o adolescente criado no estranho ambiente de um hospital já ensaiava para a sua grande obra Madame Bovary, contando a história da conturbada paixão entre uma mulher casada e seu amante.

Ao lado da companheira e roteirista Clarissa Ramalho, Ricardo pôde aprofundar a questão do narrador de maneira ainda mais complexa. Em Paixão e Virtude, tem-se a absoluta superação da figura das personagens, e o que cada um dos atores representa são modulações de sentimentos complexos e ambivalentes, evidenciando uma multiplicidade interior dentro de cada persona.

Ricardo estabelecia suas parcerias de criação com muito diálogo e amizade, e orientado pela teoria aristototélica da matéria e da forma, ofereceu não o seu filme finalizado, mas sim o conto de Flaubert como matéria para que o músico Fernando Moura executasse a sua transposição. Ricardo estava naquele momento muito mais confiante para suas escolhas: com uma equipe maior, com melhores equipamentos, e um ânimo sem igual. E foi tempo de embarcar mais uma vez em seu maravilhoso set de filmagens, de vê-lo tranquilo e ocupado, constituindo a matéria de seu cinema, transpondo suas vastas pesquisas sobre poetas da imagem, da palavra e dos sons…

Com vigorosa montagem de Joana Collier, encadeou-se a forma de Paixão e Virtude: os cortes são como símbolos a serem decifrados, onde o que se vê é um encadeamento certeiro entre a imagem que se oferece e as palavras recitadas no discurso dos personagens-narradores. Coube também a Joana montar o curta autobiográfico de Ricardo, Palavra Exata (2009), que revela a sua relação com o irmão artista plástico Ronaldo Miranda.

Para todos nós alunos, parceiros de equipe, amigos, família e apreciadores de seus filmes nas mostras e festivais, Paixão e Virtude parecia marcar a despedida de uma longa e profícua carreira como montador, e o começo, julgávamos nós, garantido de uma vida de realizado. Numa manhã de sexta-feira, Ricardo Miranda não acordou. Ricardo deixou para todos nós uma paixão pelo cinema e, nos dias que se seguiram, tivemos o prazer triste de conhecer grandes amigos e familiares nesta circunstância esvaziante. Hoje, cada um de nós pode contar histórias do Ricardo que ainda não conhecíamos, que nos alegram, e nos fazem seguir em frente, pensando em nossas vidas.

 

 

 

foto Pedro Bento

 

 

 

 

Pedro Bento é estudante de Filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Formado em Montagem e Edição de Som pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro, montou os longas de ficção “Djalioh” e “Estado de Exceção”.

Homenagem a Ricardo Miranda

28.MAR.14 | Estamos consternados com a morte de Ricardo Miranda, nosso querido sócio-benemérito. Ricardo foi um montador-autor que trabalhou com grande diretores como Glauber Rocha e Paulo Cesar Saraceni, e ainda criou sua própria filmografia com filmes de caráter inventivo. Seu último longa-metragem, Paixão e Virtude, lançado na Mostra de Tiradentes comprova que sua potência criativa estava mais viva do que nunca. Ricardo foi também professor de toda uma geração recente de editores formados pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro.

Prestamos aqui nossa homenagem a essa pessoa tão querida e generosa. Expressamos nossa mais profunda tristeza e solidariedade à família e entes mais próximos.

Neste link, encontra-se o vídeo na íntegra do encontro ocorrido no 1º Cineclube edt., em 22 de agosto de 2013. Nele, Ricardo Miranda e Martha Luz relembram como foi o processo de montagem de “Idade da Terra”. Naquela noite, o filme foi exibido, com a ordem dos rolos escolhida por sorteio, conforme vontade expressa de Glauber Rocha, à época de seu lançamento. Sem dúvida, foi uma noite histórica para a edt.

Obrigado mestre, por tudo!

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Ricardo com Eduardo Escorel e Joana Collier, sua parceira na montagem de diversos filmes

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Ricardo assina o livro de presença

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Fundação da edt. em 11/03/2012